As pílulas da felicidade
Só nessa noite, cem vezes bati minha cabeça na parede. Esperava que, tal qual ovo, ela rachasse e revelase seu conteúdo gelatinoso. Nada! Só me fez um galo. Nem foi como meu pai sempre pretendeu fazer ao me dar um beliscão: as outras dores não sobrepujaram essa. Os velhos fantasmas caducos voltaram a me assombrar. Conheço-os de muito longa data, há tempos divido meu travesseiro com eles. Me comem as entranhas, os desgraçados. Amanhã, as farináceas pílulas da felicidade virão ao meu resgate. Deus sabe que elas cumprirão seu objetivo, nem que eu tenha de me entupir com caixas delas e um garrafa de rum.
Escrito por Ray-Ray às 14h29
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Os delicados preferem morrer (C.D.A.)
Aqueles sensíveis demais, em que a vocação para a vida lhes falta, os delicados de pensar e de fazer. Esses pobres acovardados, saindo da existência pela portinha dos fundos. Os delicados, medrosos, prefera sangue a esforço, gemidos a risadas, dor a movimento. Somos delicados e não queremos ver. Somos sutis e preferimos não sentir. Não mais, pelo menos.
Escrito por Ray-Ray às 13h37
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Sorriso
É aquele sorriso que não desliga nunca. Mesmo quando ela grita, quando fica irritada, encolhida na cama cheia de dores ou confusa demais com a vida que leva, o sorriso não desaparece do seu rosto. Não pertence somente à boca, o que lhe permite ficar ali, no canto do olho, brilhando escondidinho. Isso porque ela é feliz. É estado de graça alcançado, nirvana em terra. Não some fácil assim.
SOR.RI.SO sm Riso delicado, com manifestação ou expressão de alegria ou contentamento
Escrito por Ray-Ray às 21h14
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Sonífera ilha
- Fecha, fecha - ele põe os dedos melados de açúcar nos meus olhos, misturando o doce da pele com o salgado das minhas lágrimas - isso... Shhhhh...
Eu engolia o soluço de choro, me fazendo de garota forte e bem resolvida. É claro que ele descobriu minha farça, sempre fui péssima atriz.
- Agora calma, sossega - minha boca, na boca dele, só roçando, só de leve.
O sol, a luz, queimando cada célula de qualquer ser que sobrevivesse naquela aridez. Areia branca. Areira branca e limonada quente, bem doce. Que se dane se a mão dele manchasse. Naquela sonídera ilha, só tinhamos o radinho de pilha, morreríamos um e outro do ladinho.
Escrito por Ray-Ray às 10h27
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Âs vezes, muito raramente, é meio cansativo ser vítima. Ser baixinha, gorducha, dentuça e bobona também. Me sentir mal sempre que conheço uma pessoa nova ou desisto de conhecê-la. Mas é raro. Então, não se acostumem.
Escrito por Ray-Ray às 13h38
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Mais uma vez aquele desespero está comendo minhas entranhas, como uma úlcera psicológica. Fazendo meus órgãos internos se derreter em ácido vermelho, minha boca se encher daquele gosto amargo que eu conheço bem. Eu já vi isso antes, sei como funciona.
É aquela mesma sensação de estagnação que vem de tempos em tempos, quando, olhando a vida dos outros, sou capaz de analisar a minha. E a minha não muda! E não é por falta de tentativas, longe disso, mas... Talvez, e por mais que me doa admitir, talvez eu não mereça mesmo, tudo isso que eu quero.
Então eu espero minhas gastrites imaginárias tomarem todo o controle, derreterem logo meu cérebro, e por favor, por favor, que eu tenha uma chance de começar tudo de novo!
Escrito por Ray-Ray às 13h52
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Bóia do proletariado x Luch of the director
Sabe quando você sabe que está num nível hierárquico muito menor que o do dono da empresa que você trabalha? Não, não é por comparação de salários, de carros ou de bairros de moradia. Também não é por marca de roupas ou limite de cartão de crédito, nem pela quantidade de pessoas que te conhecem por nome e sobrenome. É na hora do almoço.
No refeitório da empresa, o seu chefe vai porque ele acha que é bacana se misturar aos empregados (desculpe, colaboradores), mostrar que ele também é gente como a gente. Mas ele tem uma mesa especial, com um pedido especial. Ele não tem que pegar fila com a bandejinha na mão, nem tem que comer daquelas tigelas duvidosas. E, quando a comida não está pronta e a mocinha do outro lado do balcão diz: "pode sentar, queridinha, quando ficar pronto eu levo pra você", a dele vem antes. Mesmo que ele tenha chegado meia hora depois de você. Mesmo que ele tenha feito um pedido complicadésimo e você só queira a opção do cardápio do dia.
E, quando ele come e fala alto, com todos os gerentes se acotovelando ao seu lado, você fica sozinha, na mesa mais próxima da janela, pra não ficar impregnada de cheiro de fritura, invejando a vida boa que ele leva.
Escrito por Ray-Ray às 16h24
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